Sunça no Miolo | Who Censored Roger Rabbit? | Gary K. Wolf
É um mistério bem arquitetado, com um mundo que se sustenta sozinho fora da sombra do filme, o que, pra mim, é o maior elogio que o material de origem de uma obra prima do cinema pode receber.
SUNÇA NO MIOLO
Sunça
9/22/20263 min read




Tenho um hiperfoco auto-diagnosticado que sempre me coloca vidrado em algo que me inspirou ou que me tocou de alguma forma. Procuro referências, obras derivadas, sequências, outras produções do mesmo autor ou o material que o inspirou. Entro numa viagem criativa de estudo, para tentar entender de onde vêm, como vêm e porque veio o tema da minha inspiração.
Confesso que adoro essa fixação momentânea em algo, me leva a criar, a pensar e a aliviar essa coceira criativa interminável que vive em minha cabeça. Foi numa dessas que cheguei ao livro “Who censored Roger Rabbit” de Gary K. Wolf.
Para mim, o excelente filme “Uma cilada para Roger Rabbit” é um motivo de admiração, paixão e inspiração. O longa foi baseado no livro de Wolf, um romance noir com uma narrativa detetivesca séria que mistura personagens de tiras em quadrinhos e humanos. O diretor Robert Zemeckis em seu filme pega emprestado o “espírito” do livro e o muda de contexto utilizando do cenário das animações, estúdios de cinema e colocando em interação personagens animados e pessoas. Em uma narrativa nova e diferente em rumo e em tom com o livro de origem.
E ainda bem.
Ainda bem, porque dessa maneira, pude ter o prazer de experienciar as duas obras, de mergulhar nelas em momentos distintos sem saber o rumo e me surpreendendo com as escolhas criativas. O ponto de encontro é a mistura de personagens e humanos e uma trama de detetive noir. O espírito está ali e as obras nos encantam de diferentes formas.
O gênero do livro, hard-boiled, se traduzido literalmente significa “ovo cozido”, mas gosto de traduzir como “casca-grossa”. É uma ficção policial estilo noir com tramas mais urbanas, realistas, sombrias e violentas. E “Who censored Roger Rabbit” tem tudo isso. Wolf traz para esse universo ideias criativas que constroem um novo mundo, os balões de fala dos personagens que existem no mundo real e são palpáveis, a possibilidade de um cartum conseguir criar uma cópia temporária de si mesmo e todo o trabalho fotográfico feito para levar os personagens a estrelar suas tiras de jornal.
Eddie Valiant é um detetive durão em uma trama que envolve pornografia, chantagem, corrupção policial e com reviravoltas inesperadas. Roger Rabbit é um personagem coadjuvante na tira do bebê Herman e contrata Eddie para investigar seus patrões, os DeGreasy Brothers que não o permitem estrelar sua própria tira, eles alegam que o coelho não tem talento. Jessica Rabbit abandonou o marido e parece que nunca o amou de verdade. Em meio a isso, alguém é assassinado.
No subtexto existe uma metáfora com os personagens cartuns que Gary K. Wolf utiliza para criticar e discutir racismo. Outro aspecto textual interessante é que o autor se diverte escrevendo aliterações, figuras de linguagem e metáforas para ilustrar seus personagens e as situações criadas
É um mistério bem arquitetado, com um mundo que se sustenta sozinho fora da sombra do filme, o que, pra mim, é o maior elogio que o material de origem de uma obra prima do cinema pode receber. Wolf não escreveu um apêndice da animação, escreveu a razão dela existir. Tanto que nem terminei de fechar o livro e já peguei o segundo da série.
Who Censored Roger Rabbit? (o romance de mistério original de 1981, de Gary K. Wolf) acompanha o detetive particular cínico Eddie Valiant, contratado pelo ator de desenho animado Roger Rabbit para investigar por que os chefes do estúdio voltaram atrás na promessa de lhe dar sua própria tira de quadrinhos. Após Roger ser subitamente assassinado, Eddie precisa desvendar esse mistério surreal e sombrio para capturar o assassino.
252 páginas – 1981 – Ballantine Books
Lido no formato digital no Xteink X4 | Inglês
Autor: Gary K. Wolf
Nota do Sunça:




